Finalmente depois de um mega-atraso, resolvi escrever um
post menos
nerd e mais sério sobre a Alemanha, Então preparem-se que dessa vez vem chumbo grosso...
Há exatamente um mês atrás, fomos em uma excursão para Dresden. Excursão organizada na Alemanha é um saco: cumprir horários draconianamente, sem tempo para flanar, transformando o que era para ser prazer em obrigação - ok, isso é um problema de excursão, não da Alemanha, mas aqui é ainda pior. Serviu como um aperitivo de uma visita que deve ser refeita de forma mais meticulosa. É uma bela cidade, conhecida também como a "Florença do Norte", com belos palácio, belos painéis, belos museus com obras significativas. Mas o mais importante de Dresden está na sua história, e que não é mole não.
Para quem já está se acostumando em andar pelo o que já foi um dia a Alemanha Oriental, ou seja, obras, demolições, reformas e reconstruções, Dresden não fica atrás. Mas sua reconstrução é muito mais impressionante em função de sua história. Dresden foi completamente aniquilada durante a Segunda Guerra Mundial.
Hoje, para um desavisado, é impensável imaginar que o lugar foi completamente refeito do nada. Dresden não tinha nenhuma função capital no Estado Nazista. Era uma cidade sem maiores bases militares. Talvez sua maior importância para a Alemanha na Guerra, era ter uma fábrica de armamentos, uma estação de trem estratégica (não tanto quanto a
Hauptbanhof de Leipzig, essa sim talvez a mais importante da Alemanha) pela qual passavam armas e judeus destinados aos campos de concentração e, por fim, uma cidade de refugiados. Por ser uma cidade nunca antes bombardeada e não tão envolvida na guerra, os refugiados e feridos de guerra iam tentar se recuperar em Dresden, onde acreditavam estariam seguros, longe do front.
Em 1945, três meses antes do fim da Guerra, à noite, tocam as sirenes. Dresden seria bombardeada pelos americanos a partir de um acordo firmado com os ingleses. O que aconteceu a seguir foi devastador: ataques massivos por toda a cidade tranformou tudo em fogo e ruínas. Foram três ataques na mesma noite. As imagens são estarrecedoras do que sobrou, dos mortos. Os depoimentos são ainda piores. Quando as pessoas não morriam pelos bombardeios, morriam sufocadas, mesmo na rua, pelo fato do calor das chamas por toda a parte queimar o oxigênio. O calor era tão intenso que o ferro das estruturas e o asfalto derretiam em rios de lava.
(Cliquem nas imagens para ampliá-las)

O resultado: mais mortos que
Hiroshima.
Comprei um DVD com um documentário feito pela
ZDF, sobre o bombardeio. Meu alemão ainda não é suficiente para entender esse vídeo, as pessoas falam rápido demais e nem legenda para alemão, o que ajudava, eles colocam. Mas espero em breve entender melhor e poder dar mais informações.
Tudo em Dresden foi reconstruído, tal e qual no passado. Depois de 1945, Dresden passou por uma mega-enchente e por um longo período comunista que, com menos dinheiro, não pode se reconstruir menos lentamente. Hoje está praticamente tudo com antes. A ópera, a igreja de
Martinho Lutero completamente reconstruída. Repare abaixo que os blocos escuros, são os originais, que eles conseguiram recuperar e como em um quebra-cabeças, colocaram em seus lugares originais ou pretensamente originais.

Quando houve a celebração dos 50 ou 60 anos do bombardeio em Dresden, o governo alemão foi discreto,
Gerard Schröder foi à celebração na cidade, com participação do governo inglês, e homenageou os mortos. Parece que limitou-se a dizer que a tragédia foi o resultado da guerra e do nazismo. Manifestações de neonazistas na época foram reprimidas. Mas existe um sentimento e uma discussão real de que, na mesma moeda, deveria haver um tribunal internacional e condenar o bombardeio à cidade também como um crime de guerra, pela devastação e total incapacidade de defesa que a cidade tinha. Fala-se menos do que deveria sobre o que aconteceu em Dresden. Apesar de tão impactante e abominável como outras tragédias de guerra, talvez por ter acontecido com o vilão da história, seja menos comentado e discutido fora da Alemanha.
Se vocês procurarem no
You Tube, encontrarão acoloradas discussões sobre fotos da cidade destruída, de pessoas que acusam a Inglaterra e outras que acusam a Alemanha, dizendo que mereceram. Não se apaga um crime com outro. E talvez essa seja a mais radical e complicada maneira de se dizer que os fins justificam os meios.
Se quiserem ver cenas do bomabardeio no
You Tube, tomadas dos próprios aviões americanos,
cliquem aqui. Se por outro lado, quiserem ainda ver um interessantíssimo documentário russo em três partes sobre o bombardeio, com boas discussões, imagens de época e legendas em inglês,
cliquem aqui. Recomendo profundamente!
Impressionante, no final das contas, é a capacidade da cidade se reerguer, de se reconstruir do nada, de voltar a ser o que era, e de num dia de sábado, terem pessoas e turistas rindo na rua, sem uma aparente sombra para os incautos, do seu passado.

Que esse tipo de coisa realmente não volte a acontecer. Infelizmente, eu duvido.